O silêncio que vaza na foz do Amazonas
Aviso não falta. Fato também não. Mesmo assim, a história se repete como farsa ambiental: agora é a foz do rio Amazonas, onde a perfuração para petróleo deixou escapar fluido de perfuração para o mar. Vazou. Confirmado. Literalmente.

Aviso não falta. Fato também não. Mesmo assim, a história se repete como farsa ambiental: agora é a foz do rio Amazonas, onde a perfuração para petróleo deixou escapar fluido de perfuração para o mar. Vazou. Confirmado. Literalmente.
E o que ouvimos? Nada. Um silêncio tão espesso quanto o óleo que insiste em negar.
Na foz do Amazonas, não existe “diluição rápida”. Aquilo não é mar aberto com correntes que varrem o problema para longe da vista. É encontro de águas, berçário de peixes, manguezais que respiram lama e vida, comunidades que dependem do equilíbrio delicado entre rio e oceano. Ali, qualquer vazamento não desaparece: ele se espalha, se infiltra, se acumula. Mata peixe, mata mangue, mata recife — e leva junto a renda, a cultura e a sobrevivência de quem vive da água.
Mas, curiosamente, quando o impacto vem do “lado certo” da política, a indignação evapora. Onde estão os discursos inflamados? Onde estão os guardiões autoproclamados da floresta? Onde foram parar os ambientalistas de palanque, os artistas de hashtag, os influenciadores da onda verde que transformavam qualquer obra viária em apocalipse climático?
Quando o tema era a BR-319, a gritaria era global. Quando é petróleo na foz do Amazonas — com risco real, imediato e comprovado — o volume cai para um sussurro constrangido. A coerência, ao que parece, não faz parte da matriz energética.
A palavra da moda é “soberania”. Soberania energética. Soberania nacional. Mas soberania sem responsabilidade vira só retórica inflada. Não existe soberania ambiental quando se relativiza vazamento. Não existe transição justa quando comunidades ribeirinhas são tratadas como dano colateral. Não existe compromisso climático quando a régua moral muda conforme o governo de plantão.
O problema não é discutir petróleo — o mundo ainda vive dele, gostemos ou não. O problema é fingir que risco não existe, minimizar acidente, normalizar vazamento e esperar que o silêncio resolva. Não resolve. Silêncio não limpa mangue. Silêncio não devolve peixe. Silêncio não paga o prejuízo de quem depende do rio para viver.
O mais grave não é apenas o fluido que foi parar no mar. É o fluido moral que escorreu junto: a ideia de que certos impactos são aceitáveis quando cometidos pelos “nossos”. Esse vazamento simbólico é o mais difícil de conter.
Discurso bonito no microfone, tragédia na prática. E o povo? Que fique com o rastro no mar, com a conta ambiental e com a memória curta que tentam impor.
Se isso é soberania ambiental, vale perguntar — sem ironia, mas com urgência — o que exatamente não é.
