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ECONOMIA

Sites de apostas usam técnicas manipuladoras para fidelizar jogadores durante a Copa do Mundo

Investigação revela que as plataformas de apostas desportivas utilizam estratégias psicológicas sofisticadas — como os chamados 'textos-foguete' e promoções restritas — para captar e reter clientes fiéis, aproveitando o período da Copa do Mundo para maximizar o alcance.

Redação Observatório Mundial
5 de julho de 2026 às 16:04
Brasil
Sites de apostas usam técnicas manipuladoras para fidelizar jogadores durante a Copa do Mundo

O objetivo dos sites de apostas desportivas durante a Copa do Mundo vai muito além do lucro imediato: trata-se de captar clientes fiéis através de estratégias de marketing sofisticadas e, por vezes, eticamente questionáveis. Os anúncios exibidos durante as transmissões televisivas são apenas a face mais visível de um sistema muito mais complexo, alertam especialistas em padrões manipulativos digitais.

Os 'textos-foguete' e as promoções restritas

Quem se regista numa plataforma de apostas passa a receber newsletters por correio eletrónico e mensagens SMS — batizadas internamente de «textos-foguete» — com programas de fidelização e promoções exclusivas para utilizadores cadastrados, práticas que a legislação brasileira proíbe para o público em geral. Dados da SimilarWeb revelam que a estratégia tem surtido efeito: as plataformas que anunciaram na CazéTV registaram um aumento superior a 115% no número de descarregamentos das suas aplicações durante o torneio.

George Valença, professor de ciência da computação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e investigador especializado em padrões manipulativos de marketing — os chamados dark patterns —, sublinha que os anúncios televisivos «são apenas a ponta do icebergue».

Padrões enganosos identificados

As plataformas recorrem a diversas técnicas de manipulação de interface amplamente documentadas na economia digital. Entre elas destacam-se o Roach Motel — ambientes digitais concebidos para facilitar o registo mas tornar o cancelamento da conta intencionalmente labiríntico —, o confirmshaming — textos redigidos para gerar culpa no utilizador que tenta recusar uma oferta — e leituras criativas da regulação, como configurar por defeito limites de jogo de 8, 12 ou até 16 horas contínuas, quando o mínimo legal é de uma hora.

O impacto da Copa do Mundo

A estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo contra Marrocos provocou um salto nas audiências digitais das principais plataformas. O site da Bet365 liderou o volume de acessos, registando picos diários superiores a 5,3 milhões de visitas. A Betnacional superou 1,8 milhão de visitas num único dia, enquanto a KTO ultrapassou os 530 mil acessos diários.

Um levantamento da entidade de direitos digitais Ctrl+Z concluiu que, das 149 odds promocionais exibidas na CazéTV durante a Copa, 91 resultaram em apostas perdedoras, 53 em vencedoras e cinco foram devolvidas — um rácio que ilustra a assimetria estrutural destas plataformas.

Contexto regulatório

As empresas Betnacional, KTO e Bet365 recusaram comentar. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as três marcas, declarou-se a favor da apuração pelas autoridades, afirmando que as leis brasileiras já são estritas. Especialistas alertam, contudo, que o ciclo de captação e retenção de jogadores transfere rendimento de forma direta para operadoras sediadas, em grande parte, em paraísos fiscais e de propriedade estrangeira.

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