A Argentina transformou-se, em apenas dois anos, num caso de estudo para economistas e decisores políticos de todo o mundo. As reformas implementadas pelo governo de Javier Milei produziram resultados que muitos consideravam impossíveis, e o Brasil é um dos países que mais atentamente acompanha esta experiência.
O ponto de partida: uma crise profunda
Em 2023, a Argentina apresentava um quadro económico dramático: inflação acima de 200% ao ano, défice fiscal significativo, 15 anos de estagnação económica e 52,9% da população em situação de pobreza. O país acumulava décadas de crises recorrentes, correções incompletas e ciclos de expansão fiscal seguidos de recessão.
As reformas e os seus resultados
A agenda económica argentina assentou em três pilares fundamentais. O primeiro foi o equilíbrio fiscal: um défice público de 5% do PIB foi transformado em superávite em menos de 12 meses, através de um corte de 5 pontos percentuais no gasto público. O resultado foi um crescimento de 4,4% em 2025 e uma projeção de 3,5% para 2026, contrariando as previsões de recessão.
O segundo pilar foi o controlo da inflação: a taxa mensal caiu de 160% para menos de 3%, e o risco-país reduziu-se de 2.000 para menos de 500 pontos. O terceiro foi a desregulação económica: foram revogadas 15.500 normas, com resultados práticos imediatos, como a abertura do mercado de internet por satélite, que gerou 3 milhões de novos utilizadores, e a eliminação do controlo de rendas, que provocou uma queda de 30% nos preços reais com aumento da oferta.
O impacto social
O indicador mais significativo é a redução da pobreza: de 52,9% em 2023 para 28,2% no segundo semestre de 2025. A descompressão da inflação reverteu o seu impacto regressivo sobre os mais pobres, que são os mais afetados pela perda do poder de compra.
As lições para o Brasil
Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central do Brasil, identifica quatro lições fundamentais: um ajuste fiscal baseado no controlo de gastos é menos recessivo e tem potencial expansionista; um ambiente regulatório simplificado é necessário para atrair capital de longo prazo; a transformação do Estado deve assentar na eficiência e na tecnologia; e o Brasil deve utilizar a sua posição estratégica em energias renováveis e recursos minerais como alavanca negocial.
"O Brasil possui condições para uma trajetória virtuosa, mas necessita de determinação política para adaptar estratégias internacionais exitosas", conclui o economista.


