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Revista científica retrata estudo sobre horário de imunoterapia e sobrevivência ao cancro

A revista Nature Medicine retratou um estudo chinês que afirmava que administrar imunoterapia de manhã duplicava a sobrevivência de doentes com cancro do pulmão. A investigação foi retirada após a deteção de irregularidades metodológicas graves, incluindo registos alterados e discrepâncias nos dados.

Redação Observatório Mundial
5 de julho de 2026 às 16:04
Internacional
Revista científica retrata estudo sobre horário de imunoterapia e sobrevivência ao cancro

A prestigiada revista científica Nature Medicine retratou um estudo que havia gerado grande expectativa na comunidade oncológica ao sugerir que o simples facto de alterar o horário de administração da imunoterapia poderia quase duplicar a sobrevivência de doentes com cancro do pulmão avançado. A retratação, anunciada a 1 de julho, surge após a identificação de irregularidades metodológicas e inconsistências graves nos dados da investigação.

O estudo que prometia uma revolução

Publicado em fevereiro de 2026, o ensaio clínico realizado no Hospital de Cancro de Hunan, na China, envolveu 210 doentes com cancro do pulmão avançado. Os participantes foram divididos aleatoriamente entre receber infusões intravenosas do imunoterápico pembrolizumabe antes ou depois das 15 horas. Os resultados publicados eram impressionantes: os doentes tratados de manhã apresentavam uma progressão tumoral controlada durante 11 meses, contra apenas 6 meses no grupo da tarde, e uma sobrevivência média de 28 meses face a 17 meses.

A conclusão gerou uma enxurrada de contactos de doentes e familiares para hospitais e oncologistas em todo o mundo, questionando a possibilidade de alterar os seus horários de tratamento. «Era bom demais para ser verdade», afirmou Toni Choueiri, oncologista do Instituto Dana-Farber.

Irregularidades que levaram à retratação

A Nature Medicine identificou várias anomalias que comprometeram a integridade do estudo: registos clínicos bloqueados foram alterados a meio da investigação; existiam discrepâncias entre a versão chinesa e a versão traduzida do protocolo do estudo; todos os 210 doentes permaneceram em tratamento durante o primeiro ano sem qualquer desistência — algo estatisticamente improvável em ensaios desta natureza —; e os padrões de agendamento dos exames de acompanhamento apresentavam irregularidades inexplicáveis.

Gilberto Lopes, oncologista da Universidade de Miami, sublinhou que «estes números são típicos de medicamentos revolucionários, não de decisões de agendamento». Anil Makam, epidemiologista da Universidade da Califórnia, acrescentou que um benefício tão expressivo «teria levado as clínicas a reformular os seus horários para as manhãs».

Reações e consequências

Yongchang Zhang, um dos 28 autores do estudo — predominantemente investigadores chineses —, reconheceu em comunicado que a execução da investigação e a preparação do manuscrito «não atingiram os padrões de publicação em revistas de alto impacto». A Nature Medicine declarou não confiar mais na integridade dos resultados e agradeceu publicamente à comunidade científica pelos alertas.

O caso reaviva o debate sobre o rigor da investigação biomédica e os mecanismos de revisão por pares, num momento em que a China tem investido fortemente na expansão da sua produção científica nas áreas da saúde e da farmacologia.

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