Foi à beira de uma piscina parisiense, diante da elite da capital francesa, que nasceu uma das maiores revoluções do vestuário feminino. A 5 de julho de 1946, Micheline Bernardini, dançarina do Cassino de Paris, apresentou ao público o primeiro biquíni da história durante um desfile na lendária piscina Molitor. Com apenas alguns triângulos de tecido e uma ousadia sem precedentes, a criação do engenheiro Louis Réard prometia mudar para sempre a relação das mulheres com a moda praia e com os seus próprios corpos.
Uma revolução recebida com escândalo
A recepção, no entanto, estava longe de ser calorosa. Numa França ainda marcada pelas cicatrizes da Segunda Guerra Mundial, mostrar o umbigo em público era considerado uma afronta. A imprensa reagiu com desconfiança, quando não com indignação, e a peça foi alvo de críticas de jornalistas, líderes religiosos e sectores conservadores da sociedade. O escândalo foi de tal ordem que o biquíni demorou anos a conquistar as praias do mundo, chegando a ser oficialmente proibido em países como a Itália, a Espanha e a Bélgica, sob forte pressão da Igreja Católica.
O nome escolhido por Réard remetia ao atol de Bikini, palco de testes nucleares americanos naquele mesmo ano. Visionário do marketing muito antes de esse termo existir, o criador chegou a cunhar um slogan audacioso: «biquíni: uma bomba atómica».
O cinema como motor de popularização
A popularização da peça contou com a ajuda decisiva do cinema e das celebridades. Quando Brigitte Bardot foi fotografada em Cannes, em 1953, com um biquíni, a repercussão foi enorme. Três anos depois, voltou a surgir com um maiô de duas peças no filme E Deus Criou a Mulher, transformando-se em estrela internacional e tornando o biquíni numa peça imediatamente desejada. Marilyn Monroe, Ava Gardner e Elizabeth Taylor contribuíram igualmente para a construção do mito.
Em 1960, a peça de vestuário tornou-se mesmo um êxito musical com a canção Itsy Bitsy Teeny Weeny Yellow Polkadot Bikini, interpretada por Brian Hyland, que atravessou fronteiras e culturas.
Oito décadas de transformação cultural
Ao longo de oito décadas, o biquíni foi muito mais do que uma peça de roupa: tornou-se um espelho das transformações sociais e culturais de cada época. Das praias de Saint-Tropez às de Ipanema, do cinema de Hollywood às passarelas de moda, a peça criada em Paris continua a reinventar-se, mantendo o seu estatuto de símbolo de liberdade e emancipação feminina que atravessa gerações e continentes.


