Os primeiros seres humanos a colonizar o continente americano eram caçadores especializados de megafauna, obtendo mais de 90% dos seus nutrientes da caça a grandes mamíferos da Era do Gelo, como mamutes, preguiças-gigantes e gonfotérios. Esta é a principal conclusão de um estudo publicado na revista científica Science Advances, que analisou dados de dezenas de sítios arqueológicos na América do Norte e no Cone Sul.
Uma Dieta Baseada na Megafauna
A investigação, coordenada por Ben Potter, da Universidade do Alasca, e James Chatters, da Universidade McMaster, envolveu investigadores de instituições no Canadá, nos Estados Unidos e na Argentina. A equipa analisou ossos de animais caçados por antigos habitantes do continente em sítios arqueológicos que datam de entre 13.500 e 11.600 anos atrás.
Na América do Norte, predominou a cultura Clovis, caracterizada por pontas de lança específicas, enquanto no Cone Sul se utilizava a ponta de projétil FPP (rabo de peixe). Ambas as tecnologias eram usadas para abater animais à distância, e os dados revelam que, em todos os sítios analisados, mais de 90% da biomassa consumida derivava de grandes mamíferos.
O Debate sobre a Extinção da Megafauna
Os resultados reforçam a teoria do "overkill", que defende que a extinção dos grandes mamíferos americanos foi causada, pelo menos em parte, pela caça intensiva pelos primeiros humanos. No entanto, outros investigadores continuam a apontar as alterações climáticas do fim da Era do Gelo como fator determinante no desaparecimento destes animais.
O estudo destaca que, mesmo em sítios com condições de preservação excecional, como os do Alasca com ossos de animais de 13.000 anos, a predominância da captura de grandes animais é consistente. Esta especialização contrasta com estratégias de subsistência mais generalistas encontradas noutras regiões, como os sítios de Lagoa Santa, em Minas Gerais, no Brasil, que não foram incluídos nesta análise.
Implicações para a Compreensão da Pré-História Americana
Os investigadores sublinham que os seus resultados não se aplicam necessariamente a todo o continente americano, reconhecendo que a dinâmica pode variar consoante a região. O Brasil, em particular, apresenta padrões ainda menos claros, com sítios arqueológicos que sugerem estratégias alimentares mais diversificadas.
O trabalho contribui para um debate científico que dura décadas sobre as causas da extinção da megafauna americana e o papel dos primeiros humanos nesse processo, com implicações importantes para a compreensão da relação entre as populações humanas e os ecossistemas que habitam.


