A notícia de que quatro de nossos diletos ministros do STF resolveram trocar o tédio dos aviões da FAB pela suntuosidade das turbinas do "Comandante Vorcaro" é, no mínimo, poética. Dizem que o ar, lá em cima, é mais rarefeito, o que deve ajudar a purificar os argumentos jurídicos. Ou, quem sabe, a pressurização da cabine facilite a compreensão de teses que nós, meros mortais que enfrentamos a fila do raio-X e o sanduíche de 40 reais do aeroporto, jamais conseguiríamos alcançar.
O roteiro é digno de uma comédia de costumes da nossa "República dos Fretamentos". Um diz que foi "carona de um amigo" (quem nunca pegou um jatinho emprestado para ir ali na esquina, não é mesmo?). Outro garante que foi "táxi aéreo pago pela patroa" – um exemplo de economia doméstica que deveria ser estudado pelo Ministério da Fazenda. E há quem voe para o resort da família, porque, afinal, ninguém é de ferro e o Estado de Direito cansa as articulações.
O mais fascinante é a coincidência cósmica: as asas que carregam a justiça pertencem justamente a quem frequenta o noticiário policial por "detalhes" financeiros. É o ecossistema perfeito. O empresário entra com o querosene de aviação, e o magistrado entra com a... bom, com a presença iluminada, imagino eu.
Em Brasília, o ditado mudou. "Diga-me com quem voas e te direi que liminar pedes". Enquanto o Brasil real discute o preço da passagem de ônibus, o Brasil de toga discute se o estofado do jato é de couro legítimo ou sintético.
Nós, aqui do Observatório Mundial, seguimos de pescoço esticado, olhando para o céu. Não em busca de estrelas, mas tentando identificar qual ministro está passando por cima de nossas cabeças agora, em direção a algum destino paradisíaco, devidamente "fretado" pela generosidade alheia.
Boa viagem, Excelências! E não se esqueçam de apertar os cintos. A turbulência ética, dizem, costuma ser imprevisível.
