Extratos bancários ligam Daniel Vorcaro a repasses de R$ 35 milhões para empresa de Dias Toffoli, aponta jornal
Documentos obtidos pelo Estadão mostram que aportes de fundo ligado ao banqueiro coincidem com negociação de participação no luxuoso Resort Tayayá, no Paraná. Ministro do STF nega irregularidades e diz que não recebeu valores diretamente.

17 de fevereiro de 2026
Uma nova revelação envolvendo o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ganhou destaque neste final de semana. Extratos bancários obtidos pelo jornal Estadão indicam que um fundo de investimentos utilizado por Vorcaro movimentou R$ 35 milhões para adquirir parte da participação da família do ministro no Resort Tayayá, localizado no interior do Paraná .
A reportagem, assinada pela jornalista Samantha Klein, detalha que os aportes foram realizados por Fabiano Zettel, pastor e cunhado de Daniel Vorcaro, que figura como único cotista do fundo Arleen. As datas das movimentações financeiras coincidem com mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) nas quais Vorcaro supostamente orienta Zettel a realizar as aplicações no empreendimento .
A engenharia financeira
De acordo com os documentos, o negócio foi estruturado por meio de cotas sociais. Em setembro de 2021, o fundo Arleen adquiriu metade da participação de R$ 6,6 milhões em capital social da Maridt Participações S.A., uma empresa familiar da qual Toffoli é sócio ao lado de seus irmãos, José Carlos e José Eugênio .
Embora a parcela adquirida no capital social seja de R$ 3,3 milhões, os extratos mostram que o fundo investiu, no total, R$ 35 milhões no empreendimento. O valor integral diz respeito à aquisição de uma parte do controle do grupo responsável pelo resort, que inclui as empresas Tayaya Administração e DGEP Empreendimentos (incorporadora dos terenhos). O Tayayá é avaliado em mais de R$ 200 milhões .
As investigações da PF apontam que os recursos transitaram por uma estrutura de fundos. Fabiano Zettel era o único cotista do fundo Leal, administrado pela Reag Investimentos (também alvo de investigações no caso Master). O Leal, por sua vez, era o único cotista do FIP Arleen, que efetivamente comprou a fatia da Maridt .
"Onde tá a grana?" As mensagens da PF
Os diálogos obtidos pela Polícia Federal reforçam a tese de que Vorcaro estava pessoalmente envolvido na gestão dos repasses. Em uma das conversas de maio de 2024, Vorcaro cobra Zettel sobre a situação dos aportes ao resort: "Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim" .
Em outra troca de mensagens, Vorcaro pergunta: "Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?" Zettel responde que os recursos estavam vinculados ao fundo do empreendimento .
Zettel, então, detalha os valores já repassados: "Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões" . Os extratos mostram que os aportes iniciais de outubro e novembro de 2021 somaram aproximadamente R$ 20 milhões, enquanto um pagamento adicional de R$ 15 milhões foi efetuado em julho de 2024, mas só ingressou no fundo Arleen em fevereiro de 2025 .
Em 21 de fevereiro de 2025, a Maridt vendeu o restante de sua participação na incorporadora e na administradora do Tayayá à PHB Holding, empresa do advogado Paulo Humberto Barbosa, que já prestou serviços para a JBS .
O que diz a defesa
Em nota divulgada anteriormente, o ministro Dias Toffoli confirmou ser sócio da Maridt, mas afirmou que a empresa é administrada exclusivamente por seus familiares. Ele destacou que, de acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, é permitido a juízes integrarem o quadro societário de empresas e receberem dividendos, desde que não exerçam função de administração .
Toffoli negou ter recebido qualquer valor diretamente de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel e disse desconhecer o gestor do Fundo Arleen. O ministro também afirmou que "jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima" com o banqueiro .
Sobre a operação, a nota do gabinete ressalta que todas as transações foram devidamente declaradas à Receita Federal e realizadas dentro do valor de mercado . O ministro também destacou que assumiu a relatoria do inquérito sobre a venda do Banco Master ao BRB apenas em novembro de 2025, quando a Maridt já havia se desfeito completamente de sua participação no grupo Tayayá (fevereiro de 2025) .
A defesa de Daniel Vorcaro manifestou preocupação com o que chamou de "vazamento seletivo de informações", que, segundo os advogados, favorece "ilações e a construção de narrativas equivocadas" . Os advogados de Fabiano Zettel informaram que não comentariam o caso .
Repercussão política e institucional
A revelação dos extratos ocorre em meio à já delicada situação do ministro no caso Master. Na última semana, o STF decidiu, por unanimidade, retirar Toffoli da relatoria do processo que investiga irregularidades no Banco Master. Apesar de o tribunal ter afirmado que não se tratava de suspeição, a decisão atendeu a um pedido do próprio ministro para que os feitos fossem "livremente redistribuídos" . O novo relator designado para o caso foi o ministro André Mendonça .
No Congresso, a oposição ganhou novos argumentos. Na última quinta-feira (12), deputados e senadores protocolaram um novo pedido de impeachment contra Dias Toffoli. O líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto (PL-PB) , estima que a revelação deve impulsionar os pedidos de impedimento de ministros do Supremo .
Até o momento da publicação desta reportagem, o ministro Dias Toffoli não havia se manifestado especificamente sobre as novas informações dos extratos divulgadas no sábado .

