Por Redação | 08 mar 2026, 15h55
A máxima absolutista de Luís XIV, "L’État c’est moi" (O Estado sou eu), parece ter encontrado um eco incômodo nos corredores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O que deveria ser uma trincheira tecnológica contra a desinformação e as notícias falsas que ameaçam a democracia revelou-se, segundo novas mensagens da "Vaza Toga", um aparato de uso personalíssimo. A revelação da vez é tão prosaica quanto grave: a estrutura estatal foi acionada para vasculhar a vida de quem reformava o apartamento particular do ministro Alexandre de Moraes.
O enredo, digno do mais puro patrimonialismo brasileiro, envolve Wellington Macedo, policial militar lotado no gabinete de Moraes no STF. Em mensagens trocadas com Eduardo Tagliaferro — então chefe da assessoria de enfrentamento à desinformação do TSE —, Macedo solicitou o levantamento da ficha criminal de um prestador de serviços. Para obter o que desejava, o assessor não hesitou em recorrer a bancos de dados sigilosos da Polícia Civil de São Paulo, contornando os ritos oficiais de transparência.
O Atalho da Conveniência
O que estarrece especialistas e críticos não é o direito de um ministro à segurança — prerrogativa legítima e prevista em lei —, mas a escolha do caminho. O STF possui órgãos próprios e oficiais para zelar pela integridade de seus membros. Ao preferir o "atalho" de um setor criado para fins eleitorais, o gabinete de Moraes operou na penumbra.
As mensagens indicam um padrão de comportamento: a solicitação de dados sigilosos que, mais tarde, o próprio ministro afirmaria em plenário serem "públicos". "Excelente. Agora sim vou passar ao chefe", comemorou o segurança ao receber os detalhes de um processo criminal do trabalhador. A frase expõe a engrenagem: o Estado funcionando como um escritório de investigação privada à disposição de uma autoridade.
O Escudo do Compadrio
Se o uso da máquina pública levanta sobrancelhas, a reação das instituições de controle causa calafrios. O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, agiu com uma presteza incomum ao arquivar a notícia-crime apresentada contra o magistrado. Em menos de 24 horas, o PGR — que já foi sócio de Gilmar Mendes e contou com o beneplácito de Moraes para o cargo — emitiu um salvo-conduto público, elogiando a "retidão" do ministro.
Para observadores da cena política, o gesto de Gonet é o emblema do "compadrio" que imobiliza Brasília. Quando o fiscal da lei se torna o exaltador do investigado, a balança da justiça pende para o lado do privilégio.
A Democracia sob Lente
O episódio da reforma do apartamento é apenas um capítulo de uma crise maior de confiança. A "Vaza Toga" tem mostrado que, sob o pretexto de proteger as instituições, criou-se um sistema onde o rastro das ordens era apagado dos relatórios oficiais para evitar o escrutínio.
O patrimonialismo, esse vício de origem da formação brasileira que confunde o cofre público com a carteira particular, encontrou no Judiciário um terreno fértil. Ao transformar o combate às fake news em uma ferramenta de consulta pessoal, as cúpulas de Brasília não apenas ferem a impessoalidade administrativa, mas alimentam o discurso daqueles que pretendem deslegitimar todo o sistema. No fim do dia, a pergunta que fica é: quem guarda os guardiões quando eles decidem que o Estado lhes pertence?

