Um estudo do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra revelou que os episódios de incivilidade na Assembleia da República portuguesa mais do que duplicaram desde a entrada do partido Chega no parlamento. A investigação, liderada pelo investigador Manuel João Cruz, analisou mais de 2.000 interacções e 50 horas de debates parlamentares entre 2015 e 2025.
Da incivilidade como fenómeno estrutural
Os dados recolhidos mostram que a frequência de episódios de incivilidade — definidos como interrupções, desrespeito intencional, obscenidades, ridicularização e agitação deliberada — passou de uma ocorrência a cada dois minutos para uma ocorrência por minuto após a entrada do Chega na Assembleia da República. Entre 2020 e 2025, o partido é responsável por mais de um terço de todos os casos registados.
Os deputados com maiores índices de incivilidade
A análise dos últimos 50 anos do parlamento português identificou vários deputados do Chega entre os que apresentam os maiores índices de comportamento incivil. Pedro Frazão e Filipe Melo lideram a lista, com 7,7% das suas intervenções classificadas como incivilidade, seguidos de Pedro Pinto, com 7,2%. A linguagem utilizada inclui insultos como "palhaço", "aberração" e "anormal", bem como comentários depreciativos dirigidos a colegas parlamentares.
Impacto nos funcionários do parlamento
O fenómeno não se limita às relações entre deputados. Em Novembro de 2025, o Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais apresentou uma queixa formal ao Secretário-Geral da Assembleia da República, alegando que o comportamento de deputados do Chega afecta negativamente a dignidade, a saúde mental e a auto-estima dos funcionários parlamentares.
Propostas de reforma
O investigador Manuel João Cruz considera que os mecanismos parlamentares actuais são insuficientes para travar este fenómeno e propõe medidas como a imposição de penalizações no tempo de uso da palavra aos partidos que registem infracções recorrentes. O estudo sublinha que o comportamento disruptivo e as interrupções constantes se tornaram um elemento estrutural da identidade do Chega no parlamento, distinguindo-o dos restantes partidos, que não registaram um aumento significativo deste tipo de comportamento.
A investigação levanta questões sobre a saúde democrática das instituições portuguesas e sobre a capacidade do parlamento para se adaptar a novos actores políticos que desafiam as normas de convivência estabelecidas.


