Estratégia ou Conviction? A Calculada Moderação de Ventura sobre a Imigração Brasileira
Enquanto mantém um discurso geralmente firme sobre imigração, o candidato presidencial André Ventura tem evitado declarar "guerra" específica à comunidade brasileira em Portugal. Analistas apontam que, por trás desta aparente moderação, pode estar um cálculo eleitoral preciso: o peso crescente de eleitores luso-brasileiros no país.

Redação Observatório Mundial
📅 Data: 13 de janeiro de 2026 | Protocolo: OM-RED-POL-2026-002
O discurso do candidato presidencial André Ventura é conhecido por suas posições fortes e, por vezes, polémicas. No entanto, ao abordar um dos temas mais sensíveis da atualidade portuguesa — a imigração — o líder do CHEGA parece traçar uma linha ténue. Enquanto critica de forma generalizada políticas migratórias que classifica como "permissivas", tem sido notoriamente mais cauteloso ao direcionar esse discurso especificamente para a comunidade brasileira, a maior comunidade imigrante em Portugal.
Esta nuance não parece ser acidental. Dados consulares e estudos demográficos estimam que existam mais de 15 milhões de brasileiros com direito potencial à nacionalidade portuguesa, por serem filhos, netos ou bisnetos de portugueses. Um fluxo significativo destes tem exercido esse direito e, ao obter a cidadania, adquire também o direito de voto. Forma-se assim um colégio eleitoral em crescimento, com ligações afetivas e culturais a Portugal, mas também com uma perceção aguçada sobre discursos que possam ser percebidos como hostis à sua comunidade de origem.
"Ventura navega num território complexo", analisa a politóloga Catarina Silva, especialista em populismo e migrações. "O seu eleitorado base espera uma retórica dura sobre controle de fronteiras. No entanto, uma guerra declarada contra os brasileiros poderia alienar não apenas estes novos eleitores luso-brasileiros, mas também uma parte do eleitorado português que tem familiares no Brasil ou que rejeita um discurso percecionado como xenófobo contra um povo irmão. É um equilíbrio delicado entre agradar à base e não fechar portas a futuros votos."
Esta estratégia de diferenciação discritiva tem sido visível. Ventura frequentemente agrupa a sua crítica em torno de conceitos como "imigração ilegal descontrolada" ou "falta de integração", evitando generalizações explícitas sobre nacionalidades. Quando questionado diretamente sobre os brasileiros, tende a destacar casos pontuais de conflito ou a enfatizar a necessidade de "criterios mais rígidos" para todos, sem focar num único grupo.
Os números da presença brasileira são expressivos e vão além das estatísticas oficiais de residentes. Segundo o Observatório da Emigração, o Brasil lidera há anos os pedidos de aquisição de nacionalidade portuguesa, muitos deles baseados na ascendência. Este eleitor em potencial, muitas vezes urbano e integrado no mercado de trabalho, torna-se uma variável impossível de ignorar em qualquer cálculo político sério, especialmente em eleições presidenciais, decididas por margens por vezes estreitas.
O impacto desta moderação calculada no desempenho eleitoral de Ventura ainda é uma incógnita. Pode consolidá-lo como uma opção para eleitores descontentes mas receosos de radicalismos excessivos, ou, pelo contrário, desiludir parte do seu núcleo duro que esperava uma retórica mais inflamada. O que parece claro, segundo os analistas, é que por trás de cada palavra (ou da sua ausência) neste tema, há um meticuloso cálculo político.
A campanha de Gouveia e Melo, por outro lado, tem procurado capitalizar a sua imagem de candidato de consenso e aproximação comunitária, embora sem conseguir, até agora, travar a erosão do seu apoio, como revelado pela última sondagem.
📌 Para os nossos leitores: A estratégia de Ventura de evitar um discurso direto contra a imigração brasileira é, na sua opinião, uma posição pragmática inteligente ou uma falta de coerência com o seu discurso geral sobre imigração? A comunidade luso-brasileira deve ser um fator decisivo no desenho das políticas migratórias? Partilhe a sua perspectiva.
Esta é uma análise original da redação do Observatório Mundial. A reprodução não autorizada é proibida.
