O Brasil perdeu esta sexta-feira uma das suas mais importantes lideranças indígenas. O cacique Kuiussi Khisêtjê, líder do povo Khisêtjê e sobrinho do lendário Cacique Raoni, morreu aos 80 anos na terra indígena Wawi, no interior do Parque Indígena do Xingu, no norte do Mato Grosso. A causa do falecimento não foi divulgada.
Uma vida dedicada à defesa do seu povo
Kuiussi Khisêtjê assumiu a liderança do seu povo muito jovem, após a morte do pai, tornando-se a principal figura política dos Khisêtjê durante décadas. Apesar de nunca ter falado português nem sabido ler ou escrever na língua, a sua «inteligência, sabedoria, coragem e visão política» tornaram-no uma figura central não apenas para o seu povo, mas para o movimento indígena brasileiro em geral, segundo a Associação Indígena Khisêtjê, que lamentou a sua morte em comunicado.
Nos anos 1990, liderou a luta pela demarcação da terra indígena Wawi, resistindo ao avanço da agropecuária na bacia do rio Suiá-Miçu. A sua determinação foi fundamental para garantir que o território dos Khisêtjê fosse reconhecido e protegido pelo Estado brasileiro.
Um momento de luto duplo
A morte de Kuiussi ocorre num momento particularmente difícil para a família e para o movimento indígena. O seu tio, o Cacique Raoni, aos 94 anos, encontra-se internado na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital São Paulo desde 1 de julho, com diagnóstico de obstrução intestinal, desidratação e pneumonia por aspiração. Na quarta-feira, foi transferido para a UCI devido a uma hemorragia digestiva alta.
O legado de Kuiussi
O Instituto Raoni destacou o legado de Kuiussi na defesa dos territórios indígenas, da cultura Khisêtjê e dos direitos originários. «A sua caminhada foi marcada pela coragem, pela sabedoria e pelo compromisso permanente com a proteção da vida, da cultura e das futuras gerações», afirmou a instituição em nota de pesar.
Kuiussi Khisêtjê deixa um vazio difícil de preencher no movimento indígena brasileiro, num momento em que as pressões sobre os territórios amazónicos continuam a intensificar-se. O seu exemplo de resistência e de defesa da identidade cultural permanecerá como referência para as gerações futuras dos Khisêtjê e de todos os povos indígenas do Brasil.


