Venezuela usa força policial para provocar o Brasil e eleva tensão diplomática regional
Aparição de símbolo nacional brasileiro em comunicação da polícia venezuelana expõe captura do Estado pelo chavismo e coloca o governo Lula no centro da retórica autoritária de Caracas

Aparição de símbolo nacional brasileiro em comunicação da polícia venezuelana expõe captura do Estado pelo chavismo e coloca o governo Lula no centro da retórica autoritária de Caracas
Uma ação recente atribuída à Polícia Nacional Bolivariana provocou forte reação política e diplomática ao utilizar símbolos associados ao presidente Lula e à bandeira do Brasil em uma mensagem de tom hostil. Ainda que o rosto do mandatário brasileiro apareça desfocado, a referência visual é inequívoca e foi interpretada como uma provocação direta de um órgão oficial do Estado venezuelano contra um país vizinho.
O episódio não é trivial. Diferentemente de manifestações partidárias ou discursos inflamados de dirigentes políticos, trata-se de uma comunicação oriunda de uma instituição estatal armada, o que eleva o gesto ao plano diplomático e de segurança. Em Estados democráticos, forças policiais não atuam como instrumentos de intimidação simbólica contra governos estrangeiros. Na Venezuela, porém, a distinção entre partido, governo e Estado tornou-se cada vez mais difusa.
A Polícia Nacional Bolivariana é subordinada ao Ministério do Interior, historicamente controlado por Diosdado Cabello, um dos homens mais poderosos do chavismo e principal porta-voz do núcleo duro do regime. Nesse contexto, a ação é amplamente vista como deliberada e alinhada à estratégia política do presidente Nicolás Maduro, e não como um desvio isolado de conduta institucional.
Analistas observam que o gesto se encaixa em um padrão clássico de regimes autoritários sob pressão: a construção de um inimigo externo para mobilizar a base interna e desviar o foco de crises econômicas, isolamento internacional e questionamentos sobre legitimidade eleitoral. Nos últimos meses, Caracas já havia tensionado relações regionais ao levantar reivindicações territoriais sobre a Guiana. Agora, o Brasil surge como novo alvo retórico.
O movimento também expõe uma contradição política sensível em Brasília. O Partido dos Trabalhadores, legenda do presidente Lula, ainda reconhece formalmente a Venezuela como um Estado democrático, apesar das reiteradas denúncias internacionais sobre eleições fraudadas, repressão a opositores e captura das instituições. A provocação policial venezuelana, no entanto, sugere que o próprio regime já não trata o governo brasileiro como aliado confiável.
Nos bastidores, aliados de Maduro passaram a difundir a narrativa de que Lula teria colaborado com os Estados Unidos ao compartilhar informações estratégicas sobre a liderança venezuelana — uma acusação sem provas, mas politicamente funcional. Ao rotular um antigo parceiro regional como “traidor”, o chavismo tenta reescrever alianças passadas e reforçar uma lógica de cerco externo.
O episódio marca uma escalada preocupante. Quando forças de segurança são usadas como instrumentos de provocação política internacional, o sinal emitido é claro: o Estado deixou de ser neutro e passou a operar como extensão direta do projeto de poder de um grupo. Para a região, o risco não está apenas na retórica agressiva, mas na normalização de comportamentos institucionais típicos de regimes autoritários — um precedente que tende a corroer a já frágil estabilidade diplomática sul-americana.
