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CORRUPÇÃO

Venezuela: o eixo oculto da nova oligarquia latino-americana

Por anos, analistas tentaram compreender por que a política externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil passou por mudanças aparentemente contraditórias — especialmente no que diz respeito a sanções, tarifas e decisões que impactaram diretamente figuras centrais do poder brasileiro

Wilson Ribeiro
10 de janeiro de 2026 às 02:30
Brasil
Venezuela: o eixo oculto da nova oligarquia latino-americana

Por anos, analistas tentaram compreender por que a política externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil passou por mudanças aparentemente contraditórias — especialmente no que diz respeito a sanções, tarifas e decisões que impactaram diretamente figuras centrais do poder brasileiro. Muitas dessas decisões nunca foram plenamente explicadas ao público. Hoje, porém, um conjunto de fatos, reportagens e movimentos de bastidores começa a revelar um desenho mais amplo.

No centro desse tabuleiro está a Venezuela.

Sanções revogadas e perguntas sem resposta

A revogação de sanções internacionais contra Alexandre de Moraes gerou perplexidade entre observadores políticos no Brasil e no exterior. À época, sequer ficou claro se a própria administração norte-americana compreendia integralmente o alcance da decisão. O então presidente Donald Trump jamais ofereceu uma explicação pública consistente sobre o tema.

O que se sabia, no entanto, era que empresários brasileiros de peso haviam intensificado sua presença em Washington nos meses que antecederam a decisão.

O lobby silencioso

Desde setembro do ano anterior à revogação das sanções, já circulavam informações de que Joesley Batista, controlador da JBS, teria sido recebido em círculos próximos ao governo norte-americano. Em dezembro, a jornalista Mônica Bergamo noticiou que André Esteves, do BTG Pactual, também teria se reunido com Trump com objetivo semelhante: discutir sanções, tarifas e o ambiente regulatório brasileiro.

Posteriormente, informações apuradas junto a fontes nos Estados Unidos confirmaram que André Esteves atuou diretamente junto ao Departamento do Tesouro norte-americano para defender a retirada das sanções contra Alexandre de Moraes.

Uma relação que azedou

Hoje, a relação entre Alexandre de Moraes e André Esteves parece ter se deteriorado. Há relatos de tensão e disputas de interesse entre os dois. Nos bastidores, circulam versões de que o banqueiro teria sido pressionado ou chantageado — algo impossível de confirmar de forma definitiva. O que é factual é que os interesses que antes convergiam já não caminham em harmonia.

A prioridade americana não é o Brasil

Para compreender o pano de fundo dessas movimentações, é necessário olhar além do Brasil. A política externa dos Estados Unidos, neste momento, está profundamente conectada — e em muitos aspectos subordinada — à sua estratégia para a Venezuela.

Independentemente de concordâncias ou discordâncias, esse é o dado central: a Venezuela se tornou prioridade estratégica para Washington. Não apenas pela tragédia humanitária em curso, mas porque o país passou a concentrar interesses de diversas oligarquias latino-americanas e internacionais.

Petróleo, sigilo e coincidências

É nesse ponto que os nomes brasileiros voltam a aparecer.

Pouco tempo após reuniões com autoridades americanas, veio à tona que empresas ligadas a Joesley Batista possuíam investimentos em exploração de petróleo na Venezuela desde 2024. Trata-se da J&F, holding controlada pelo empresário, com participação em poços venezuelanos.

Sobre essas operações, quase nada se sabe.

O motivo? O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva impôs sigilo de cinco anos sobre os telegramas diplomáticos relacionados aos negócios dos irmãos Batista na Venezuela — informação revelada pela jornalista Malu Gaspar.

Mais nomes, o mesmo destino

As coincidências não param aí.

Segundo reportagem de O Globo, o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, tornou-se sócio em poços de exploração de petróleo na Venezuela aproximadamente no mesmo período em que Joesley Batista iniciou seus investimentos no país. Estima-se que mais de 150 milhões de dólares já tenham sido aplicados nesses empreendimentos.

Vorcaro é o mesmo empresário que pagou cerca de 129 milhões de reais à família de Alexandre de Moraes em um contrato imobiliário considerado atípico por especialistas do mercado. Seus ativos, por sua vez, despertaram interesse direto de André Esteves.

Um eixo de poder

Quando se observa o conjunto — empresários beneficiados por sigilo estatal, lobby internacional, sanções revogadas, investimentos em petróleo venezuelano e disputas entre figuras centrais do Judiciário e do sistema financeiro — emerge um padrão.

Todos os caminhos levam à Venezuela.

Mais do que uma crise humanitária, o país tornou-se um polo de convergência de interesses econômicos e políticos de empresários brasileiros, elites regionais e atores globais, incluindo russos e chineses. Trata-se de um novo eixo de poder, ainda pouco compreendido pela opinião pública.

Conclusão

A Venezuela deixou de ser apenas um problema externo. Ela passou a ser uma peça-chave para entender decisões show de bastidores que impactam diretamente o Brasil, sua política externa, seu Judiciário e sua elite econômica.

Ignorar esse tabuleiro é aceitar que as grandes decisões continuem acontecendo no escuro.

E, em política internacional, o escuro quase nunca é neutro.

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