Nos últimos meses, o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, voltou a ocupar espaço no debate público com uma retórica firme contra a corrupção e em defesa da moralidade administrativa. Seu discurso, carregado de críticas contundentes, tem atraído atenção e gerado expectativas em parte do eleitorado. Porém, para além da eloquência, há um passado que não pode ser simplesmente apagado.
Garotinho não é um nome novo na política fluminense. Sua trajetória está marcada por episódios que colocam em xeque a credibilidade do seu discurso atual. Entre os episódios mais graves está a condenação judicial por corrupção eleitoral, ratificada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O chamado “escândalo do Cheque Cidadão” revelou o uso indevido de programas sociais para fins eleitorais, violando o artigo 299 do Código Eleitoral e comprometendo a lisura do processo democrático.
Mas os problemas não se limitaram ao âmbito eleitoral. Durante sua gestão, a área de segurança pública, pilar fundamental do Estado, sofreu severos abalos decorrentes de escândalos envolvendo altos escalões. O caso mais emblemático foi o do então chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, preso sob acusações de corrupção e vínculos com o crime organizado. Esse episódio não pode ser visto como falha isolada, mas como sintoma de uma estrutura de controle precária e escolhas questionáveis na nomeação de agentes públicos.
A indicação de autoridades com histórico controverso para cargos estratégicos transcende meras decisões administrativas. Essa prática compromete a integridade institucional e fere o princípio da moralidade administrativa previsto no artigo 37 da Constituição Federal. No campo jurídico, configura a chamada culpa in eligendo — responsabilidade por má escolha de agentes públicos que impactam diretamente no funcionamento do Estado.
O Rio de Janeiro enfrenta hoje uma crise estrutural profunda. A presença consolidada de organizações criminosas, como o Comando Vermelho e milícias paramilitares, não é fruto do acaso. Resulta de décadas de fragilização institucional, decisões equivocadas e falta de controle efetivo sobre setores sensíveis, especialmente a segurança pública. A responsabilidade é coletiva e histórica, mas não se pode ignorar o legado deixado por governos marcados por escândalos e má gestão.
O debate público fluminense precisa, portanto, ser pautado pela memória e pela análise crítica. O eleitor não pode se deixar seduzir apenas por discursos inflamados; é fundamental avaliar quem já esteve no poder, quais foram os resultados concretos de sua gestão e quais marcas institucionais ficaram. Não se trata de cercear candidaturas nem de negar direitos democráticos, mas de exercer o direito à escolha responsável.
Segundo a cientista política Mariana Teixeira, "a política exige memória institucional para que erros do passado não sejam reincididos. No Rio, essa memória é fundamental para enfrentar a crise atual e buscar soluções sustentáveis".
Trocar o “novo” pelo “velho conhecido” sem reflexão pode significar repetir erros e aprofundar crises, especialmente em um cenário onde a segurança pública está em colapso e a confiança nas instituições se deteriora. A pergunta que o eleitor deve fazer não é quem grita mais alto, mas quem realmente demonstrou capacidade de governar sem comprometer o Estado.
O desafio para o Rio de Janeiro é grande e exige uma postura madura e consciente. A responsabilidade está nas mãos dos cidadãos, que devem exigir não só promessas, mas resultados e integridade. Porque, como alerta o historiador Carlos Mendes, "a ausência de memória política condena uma sociedade a reviver seus piores momentos".
Em um momento em que o Estado luta para recuperar a ordem e a confiança, relembrar o passado com honestidade é o primeiro passo para construir um futuro diferente. O Rio de Janeiro não pode mais se dar ao luxo de esquecer o que o tempo já mostrou: a moralidade na administração pública não é um discurso, mas uma prática que deve ser exigida e observada com rigor.
Os episódios mais graves da segurança pública fluminense, como o caso do ônibus 174 e as sucessivas crises no sistema penitenciário, não podem ser analisados de forma isolada. Todos ocorreram dentro de um contexto administrativo específico, sob a condução de um governo que tinha o dever constitucional de garantir ordem, controle e eficiência na atuação estatal.
Não se trata de imputar responsabilidades penais sem decisão judicial, mas de reconhecer um dado objetivo e incontornável, os fatos aconteceram durante aquela gestão. E isso, por si só, impõe ao eleitor um dever de reflexão.
Governar é assumir responsabilidades. E quando o Estado falha em proteger vidas, em controlar suas instituições e em impedir o avanço da criminalidade, essa falha não é abstrata, ela tem comando, tem direção e tem contexto político.
O Rio de Janeiro de hoje, marcado pela presença ostensiva de organizações criminosas e pela perda de controle territorial, não nasceu do acaso. Ele é resultado de um processo histórico que atravessa governos, decisões e omissões.
Por isso, mais do que discursos ou narrativas, o que se exige do eleitor fluminense é memória e responsabilidade. Porque escolher um governante não é apenas um ato político, é uma decisão sobre o futuro institucional do Estado.


