BRASÍLIA — Documentos encaminhados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado colocaram sob escrutínio uma série de transferências financeiras de alto valor realizadas pelo Banco Master a autoridades, políticos e pessoas ligadas ao poder público. O material, agora sob análise da comissão, levanta questionamentos sobre a natureza dos pagamentos e eventuais conflitos de interesse.
Segundo os dados enviados, entre os beneficiários aparecem nomes de destaque da política nacional e do sistema de Justiça. O ex-presidente Michel Temer teria recebido R$ 10 milhões por meio de seu escritório de advocacia. Já o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega figura com repasses de R$ 14 milhões.
Também consta na lista o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, que posteriormente ocupou o Ministério da Justiça, com valores que somam R$ 6,1 milhões. De acordo com os registros, os pagamentos teriam sido realizados a partir de novembro de 2023.
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores envolve a advogada Viviane Barros de Moraes, cujo escritório teria recebido R$ 80,2 milhões. Ela é esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. A documentação também menciona a empresa Boni Bonilha, ligada à família do senador Jacques Wagner.
Na esfera econômica, aparece o nome de Henrique Meirelles, com repasses de R$ 8 milhões. Já no campo político-partidário, os registros incluem o governador do Paraná, Ratinho Júnior, e o apresentador Ratinho, por meio do Grupo Massa, que teria recebido cerca de R$ 24 milhões.
Dois nomes ligados ao União Brasil também aparecem: o presidente da sigla, Antonio Rueda, com R$ 6,4 milhões, e ACM Neto, que teria recebido R$ 5,45 milhões via empresa de consultoria.
Natureza dos repasses está sob investigação
Os documentos não indicam, por si só, ilegalidade nos pagamentos, mas levantam suspeitas que motivaram o envio à CPI. Parlamentares pretendem apurar se os valores correspondem a serviços efetivamente prestados ou se podem configurar favorecimento indevido, tráfico de influência ou outras irregularidades.
Integrantes da comissão avaliam que a diversidade de beneficiários que inclui nomes de diferentes espectros políticos e funções públicas amplia a complexidade da investigação e pode indicar um padrão de atuação ainda não esclarecido.
Próximos passos
A CPI deve convocar representantes do banco, além de alguns dos citados, para prestar esclarecimentos. A análise técnica dos documentos também poderá ser complementada por informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras e do Ministério Público Federal.
Nos bastidores, parlamentares já discutem a possibilidade de quebra de sigilo bancário e fiscal para aprofundar a apuração.
Procurados, alguns dos citados afirmaram, em manifestações públicas anteriores ou por meio de assessorias, que os valores recebidos decorrem de atividades lícitas e contratos regulares de prestação de serviços. Outros ainda não se pronunciaram.
A investigação segue em curso.


