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CORRUPÇÃO

O outro lado da apreensão

Denúncias indicam que policiais do DENARC podem ter transformado operações contra o tráfico em fonte paralela de abastecimento do próprio crime

Redação
9 de abril de 2026 às 03:56
Brasil
O outro lado da apreensão

Há algo de profundamente errado quando a matemática de uma apreensão policial não fecha e pior: quando essa diferença pode significar que parte da droga voltou para o mercado ilegal pelas mãos de quem deveria combatê-lo.

Uma denúncia recente, revelada a partir de elementos colhidos pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, lança uma sombra sobre o Departamento Especializado em Narcóticos (DENARC) do Espírito Santo. No centro do caso está uma operação realizada em 2023, na BR-101, que, à primeira vista, parecia apenas mais uma ação bem-sucedida contra o tráfico. Não era.

A conta que não bate

https://www.gov.br/prf/pt-br/noticias/estaduais/rio-de-janeiro/2025/agosto/prf-prende-passageiro-com-grande-carregamento-de-drogas-em-onibus-interestadual-na-br-101/oc.jpg/%40%40images/4cc96528-bf4a-45d2-91e2-4982b4265251.jpeghttps://ssp.rs.gov.br/upload/recortes/202406/06170054_181705_GD.jpeghttps://www.gov.br/prf/pt-br/noticias/estaduais/rio-de-janeiro/2022/setembro/prf-prende-mulher-transportando-cinco-tabletes-de-crack-em-pirai/crackonibus_15-9.jpeg

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Na ocasião, uma mulher foi presa transportando crack em um ônibus que saiu de São Paulo rumo a Vitória. A versão oficial registra a apreensão de 2 quilos da droga.

Mas, segundo relatos obtidos no curso da chamada Operação Turquia, a carga original era de 8 quilos.

A diferença 6 quilos de crack não desaparece por erro de balança.


O elo interno

O nome do policial civil Herilton Rosa Júnior surge como responsável pela coordenação da ação. A suspeita: parte da droga teria sido desviada antes do registro oficial.

A informação não surgiu de auditoria interna ou controle institucional. Veio do outro lado do crime organizado.

Um integrante ligado ao PCC, preso e ouvido pela Polícia Federal, relatou que a carga enviada era superior àquela oficialmente apreendida. A narrativa coincide com os indícios reunidos pelo Ministério Público.

É o tipo de convergência que, em investigações desse porte, raramente é ignorada.


A peça mais vulnerável

Há um detalhe que transforma a suspeita em algo ainda mais grave.

A mulher presa uma “mula” do tráfico teria sido colocada em uma situação sem saída:
confirmar a versão oficial ou correr o risco de ser executada pelo próprio grupo criminoso.

No submundo do tráfico, divergência de carga não se discute — se pune.

Isso significa que, se houve desvio, ele foi blindado por um mecanismo perverso: o medo.


Um padrão em formação

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O caso não está isolado.

As investigações apontam para uma possível rede envolvendo policiais da região sul do Espírito Santo, com conexões que ultrapassam fronteiras estaduais alcançando Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O inquérito corre sob sigilo. E não por acaso.

Quando a suspeita recai sobre quem investiga, a investigação precisa se proteger.


Quando o sistema falha por dentro

Se confirmadas, as condutas em apuração desenham um cenário inquietante:
policiais que não apenas combatem o tráfico, mas interferem diretamente na dinâmica do mercado ilegal.

Não se trata apenas de corrupção individual. Trata-se de um possível modelo operacional invertido:

  • apreende-se a droga

  • registra-se apenas parte dela

  • o restante desaparece

  • e, possivelmente, retorna ao circuito criminoso

É o tipo de distorção que compromete não só operações policiais, mas também processos judiciais inteiros já que a integridade da prova passa a ser questionável.


O silêncio institucional

Até o momento, não há confirmação oficial de prisões ou afastamentos diretamente ligados a este episódio específico. Mas a pressão aumenta à medida que novos elementos surgem.

Casos como esse costumam seguir dois caminhos:
ou são rapidamente contidos ou se expandem.

E, neste caso, os sinais apontam para expansão.


A linha tênue

O combate ao tráfico sempre operou em uma zona de tensão entre legalidade e força. Mas há uma linha que, quando cruzada, transforma o agente público em parte do problema que deveria resolver.

Se a investigação confirmar o desvio de drogas por policiais, o impacto não será apenas criminal.

Será institucional.

Porque, nesse cenário, a pergunta deixa de ser sobre quantos quilos foram apreendidos e passa a ser sobre quantos nunca chegaram a ser oficialmente registrados.

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