Num momento em que o debate sobre o impacto da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho domina as agendas políticas e económicas de todo o mundo, um historiador económico de renome veio contrariar a narrativa dominante: a verdadeira má notícia para o emprego não é o poder destruidor da IA, mas sim uma economia global que perdeu a capacidade de gerar postos de trabalho em quantidade suficiente.
O Argumento da Estagnação
Segundo o especialista, o crescimento do setor dos serviços — que hoje representa a maior fatia das economias desenvolvidas — trouxe consigo um avanço lento da produtividade, fenómeno conhecido na literatura económica como a «doença de Baumol». Ao contrário da indústria transformadora, os serviços resistem à automação em muitas das suas vertentes, mas também crescem a um ritmo mais lento, limitando a criação de novos empregos.
Esta dinâmica, combinada com décadas de políticas de austeridade e desinvestimento público, terá criado uma economia estruturalmente incapaz de absorver a força de trabalho disponível — independentemente do que a IA venha ou não a fazer.
O Papel da Inteligência Artificial
Isso não significa que a IA seja irrelevante para o futuro do trabalho. O Fórum Económico Mundial estimou que a IA poderá substituir ou alterar significativamente dezenas de milhões de empregos até ao final desta década. Cerca de 42% dos trabalhadores norte-americanos exercem funções com elevada exposição à automação por IA, particularmente em áreas administrativas e de processamento de dados.
Contudo, o historiador argumenta que a IA funciona mais como um acelerador de tendências já existentes do que como uma causa autónoma de desemprego. Em setores onde a estagnação já se fazia sentir, a automação poderá agravar a situação; noutros, poderá criar novas oportunidades para trabalhadores que souberem adaptar-se.
Debate Entre Economistas
A tese divide a comunidade académica. Enquanto alguns economistas, como os do Goldman Sachs, preveem um impacto moderado da IA no desemprego — da ordem dos 0,5 pontos percentuais durante a transição —, outros alertam para o risco de uma «carnificina de colarinhos brancos», com taxas de desemprego que poderiam atingir os 10 a 20% se os postos de entrada no mercado de trabalho desaparecerem em massa.
O consenso emergente aponta para uma transição desigual e prolongada, em que os benefícios da IA serão capturados principalmente por acionistas e gestores de topo, enquanto os trabalhadores de rendimentos médios enfrentarão pressões crescentes. A resposta política a este desafio — através de formação, redistribuição e investimento público — será determinante para o tipo de sociedade que emergirá desta transformação.


