DOSSIÊ RIO: A SEGURANÇA PÚBLICA NO BALCÃO DE NEGÓCIOS DO CRIME
Como o loteamento político de secretarias e delegacias transformou as forças de elite do Rio de Janeiro em braços operacionais de facções, milícias e bicheiros.

Durante os últimos 15 anos, a escolha dos comandos da segurança pública no Rio de Janeiro tem sido alvo de críticas recorrentes de especialistas, investigadores e jornalistas. A nomeação de chefes da Polícia Civil (PCERJ), Polícia Militar (PMERJ) e da Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP) raramente é vista apenas como técnica. O padrão descrito por pesquisadores de segurança pública sugere forte influência política nas indicações — muitas vezes negociadas no ambiente da Assembleia Legislativa do Rio (ALERJ).
A consequência dessa politização, segundo analistas, é a criação de uma cadeia de lealdades paralelas que pode enfraquecer a autonomia das instituições.
Como funciona o mecanismo político
Relatos recorrentes de bastidores apontam que as secretarias da área de segurança se tornaram cargos estratégicos dentro da política estadual. As indicações teriam servido, historicamente, como moeda de negociação entre o governo e grupos políticos com forte base eleitoral em territórios vulneráveis à atuação do crime organizado.
Entre os efeitos apontados por especialistas:
• Pressões sobre operações policiais em determinadas áreas
• Disputa por contratos públicos, especialmente no sistema prisional
• Influência indireta sobre investigações sensíveis
O sistema prisional, em particular, é frequentemente citado por pesquisadores como área sensível devido ao volume de contratos públicos (alimentação, limpeza, tecnologia e monitoramento).
Quando autoridades viram investigados
Nos últimos anos, operações da Polícia Federal e do Ministério Público atingiram integrantes do alto escalão da segurança pública fluminense. É essencial destacar: todos são citados aqui conforme investigações, denúncias ou processos divulgados publicamente pela Justiça e pela imprensa.
Rivaldo Barbosa – ex-chefe da Polícia Civil
Foi preso em 2024 em operação da Polícia Federal.
Investigadores afirmam que ele teria participado do planejamento do assassinato da vereadora Marielle Franco e da tentativa de obstrução da investigação. O caso ainda tramita na Justiça.
Adriana Belém – delegada da Polícia Civil
Presa em 2022 durante operação contra lavagem de dinheiro ligada ao jogo do bicho.
Segundo a investigação, foram encontrados cerca de R$ 1,8 milhão em espécie em sua residência. O processo segue em andamento.
Allan Turnowski – ex-secretário de Polícia Civil
Foi preso preventivamente em investigação sobre suposto recebimento de propina de contraventores. Posteriormente foi solto por decisão judicial, e o caso continua sob análise da Justiça.
Raphael Montenegro – ex-secretário da SEAP
Alvo de investigações que apontaram suspeitas de negociação com lideranças de facções dentro do sistema penitenciário.
Astério Pereira – ex-secretário da SEAP
Condenado em caso envolvendo corrupção em contratos de fornecimento de alimentação para presídios.
O papel da contravenção e das milícias
Pesquisadores da área de segurança pública costumam destacar que o Rio possui um fenômeno peculiar: a convivência histórica entre crime organizado, contravenção e política local.
O jogo do bicho, apesar de ilegal, mantém influência econômica relevante desde o século XX. Já as milícias — grupos paramilitares formados inicialmente por agentes de segurança — passaram a dominar territórios e serviços como transporte alternativo, gás e internet.
Segundo estudos acadêmicos e CPIs, essas estruturas frequentemente buscam proteção institucional, criando redes de influência política.
Impactos no cotidiano policial
Enquanto as disputas ocorrem no topo, a base das forças de segurança enfrenta:
• Baixos salários e condições precárias
• Alto risco de morte em serviço
• Pressões políticas e operacionais contraditórias
Especialistas afirmam que a politização das nomeações pode gerar uma “hierarquia informal”, onde a fidelidade pessoal pesa mais do que a autonomia institucional.
Por que a corregedoria raramente pune?
Um ponto recorrente nas análises é a dificuldade de punição interna. Entre os fatores apontados:
• corporativismo institucional
• dependência hierárquica das corregedorias
• influência política nas nomeações internas
Isso ajuda a explicar por que investigações externas (PF e MPF) frequentemente são responsáveis por casos de maior impacto.
O custo da omissão
A combinação de influência política, interesses econômicos e fragilidade institucional cria um ambiente onde a confiança pública se deteriora.
No fim da cadeia estão dois grupos que pagam a conta:
o policial de rua e a população.
O tema permanece central no debate sobre segurança pública no Brasil, pois revela como instituições podem ser fragilizadas quando cargos estratégicos deixam de ser tratados como técnicos e passam a integrar o jogo político.

