O surto de Ébola que assola a República Democrática do Congo (RDC) e o Uganda desde o início de 2026 enfrenta um inimigo invisível mas igualmente perigoso: a desinformação. Desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de âmbito internacional, a 17 de maio, um vácuo de informação instalou-se nas comunidades mais afetadas, criando terreno fértil para a proliferação de narrativas falsas que comprometem os esforços de contenção da doença.
A Dimensão do Surto
Causado pela estirpe Bundibugyo do vírus Ébola — para a qual não existe ainda vacina licenciada —, o surto registou, até ao início de junho de 2026, mais de mil casos suspeitos e centenas de mortes, com a RDC como epicentro. A ausência de um tratamento específico e aprovado agravou o clima de medo entre as populações locais, tornando-as mais vulneráveis à influência de narrativas conspirativas.
O «Manual» da Desinformação em Saúde
Segundo investigadores e organizações humanitárias, a desinformação em torno deste surto segue um padrão recorrente, já observado em anteriores crises sanitárias. Entre as narrativas mais disseminadas contam-se alegações de que o Ébola é uma arma biológica criada em laboratório, teorias de que o surto foi orquestrado por governos ou pela indústria farmacêutica para lucrar com a crise, e a promoção de «remédios simples» sem qualquer base científica.
Nas zonas rurais da RDC, circulam rumores sobre «caixões fantasma» e «sacrifícios ocultos» em minas da região. Nas redes sociais, estas narrativas são amplificadas por «influenciadores de saúde», ativistas antivacinas e canais de desinformação potenciados por inteligência artificial.
Consequências no Terreno
A desconfiança gerada pela desinformação tem consequências tangíveis e graves. Organizações como o Comité Internacional de Resgate (IRC) relatam uma diminuição da cooperação comunitária, potenciais ataques a instalações de ajuda humanitária e resistência às medidas de saúde pública. Para contrariar esta tendência, as equipas no terreno recorrem a visitas porta a porta, mensagens radiofónicas e agentes de saúde comunitários locais, capazes de transmitir informação factual e culturalmente adaptada.
A OMS e os governos da RDC e do Uganda apelam à população para que recorra apenas a fontes oficiais de informação e reporte casos suspeitos às autoridades de saúde, sublinhando que a transparência e a confiança são ferramentas indispensáveis no combate a qualquer epidemia.


