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DADOS QUE EMERGEM DO CENTRO DO TABULEIRO GEOPOLÍTICO — Observatório Mundial, destaque especial

Documentos alfandegários suíços e dados de comércio internacional recentemente analisados por agências de notícias revelam um capítulo decisivo da economia venezuelana sob o governo de Nicolás Maduro: entre 2013 e 2016, a Venezuela exportou para a Suíça cerca de 113 toneladas métricas de ouro

Fernando Quintão
8 de janeiro de 2026 às 22:22
Internacional
DADOS QUE EMERGEM DO CENTRO DO TABULEIRO GEOPOLÍTICO — Observatório Mundial, destaque especial

Caracas e Berna, 8 de janeiro de 2026 — Documentos alfandegários suíços e dados de comércio internacional recentemente analisados por agências de notícias revelam um capítulo decisivo da economia venezuelana sob o governo de Nicolás Maduro: entre 2013 e 2016, a Venezuela exportou para a Suíça cerca de 113 toneladas métricas de ouro — avaliadas em aproximadamente US $ 5,2 bilhões. Esses envios fazem parte de uma operação focada em monetizar reservas internacionais diante de uma crise econômica profunda que corroeu receitas e liquidez do Estado venezuelano.

Os carregamentos saíram diretamente das reservas do Banco Central da Venezuela e foram destinados a refinarias suíças, onde o ouro foi transformado em barras com padrão internacional (tipo Good Delivery), facilitando sua comercialização global e possíveis usos como garantia em operações financeiras. A Suíça, notória por ser um dos maiores centros mundiais de refino e comércio de ouro, desempenhou um papel-chave nesse processo.

Especialistas em mercados e analistas financeiros descrevem esses envios como um ato de “desespero” econômico: com a economia venezuelana marcada por hiperinflação, queda nas exportações de petróleo — tradicional fonte de divisas fortes — e severas limitações no acesso a financiamento externo, o regime de Maduro precisou recorrer às reservas metálicas para levantar capital e atender a obrigações financeiras emergentes.

Relatórios sugerem que, ao longo de até cinco anos, cerca de 127 toneladas de ouro podem ter transitado pelo sistema financeiro suíço, uma operação que incluiu processamento, certificação e posterior redistribuição para outros mercados e centros financeiros globais.

Esses fluxos cessaram a partir de 2017, quando a União Europeia impôs sanções a autoridades venezuelanas, medidas que a Suíça passou a aplicar em 2018. Embora as restrições não tenham incluído proibições diretas às importações de ouro, elas complicaram fortemente essas transações e contribuíram para o fim desse fluxo específico de exportações.

Esse capítulo histórico acontece no mesmo contexto em que Maduro foi detido por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026, e enfrentará acusações em uma corte de Nova York, incluindo tráfico de drogas e narcoterrorismo. Logo após sua captura, o governo suíço anunciou o congelamento de todos os ativos ligados a Maduro e a 36 associados por um período de quatro anos, em uma medida preventiva para impedir a transferência de recursos potencialmente ilícitos. Não está claro, no entanto, se qualquer parte dos ativos congelados tem ligação direta com as remessas de ouro das décadas anteriores.

Analistas observam que as transferências de ouro serviram como uma válvula de escape financeira para o Estado venezuelano em um período de pressão econômica extrema, mas também levantam questões sobre a transparência e o destino final de ativos de enorme valor econômico. À medida que investigações e litígios se desenvolvem em múltiplas jurisdições, a história do ouro venezuelano marca um dos episódios mais relevantes da economia política contemporânea da América Latina — um lembrete de como reservas naturais, crises econômicas e regimes políticos entrelaçam-se em teias complexas no mercado financeiro global.

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