POR - LUIZA DAMASCENO.
RIO DE JANEIRO - Mais de quatro meses após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, em 18 de novembro de 2025, servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro continuam recebendo faturas do cartão de crédito consignado Credcesta com boletos sacados pela instituição extinta com vencimento em abril de 2026.
A prática é irregular. Um banco em liquidação tem suas operações encerradas e seus ativos passam ao controle de um liquidante nomeado pelo BC. O próprio Banco Master informou clientes sobre o processo, que segue em andamento junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A persistência dos descontos ocorre sob um governo estadual interino comandado por um desembargador.
Rombo bilionário
O caso do Banco Master não se resume a boletos. A Rioprevidência, autarquia responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores fluminenses, aplicou cerca de R$ 970 milhões na instituição financeira do empresário Daniel Vorcaro.
Entre os 18 fundos de previdência estaduais e municipais que investiram em letras financeiras do Master, o Rio de Janeiro respondeu por mais da metade do total sozinho. Economistas apontam uma cronologia suspeita: o presidente nomeado assumiu a Rioprevidência e, no dia seguinte, o Banco Master foi credenciado para receber investimentos da autarquia.
Os ativos aplicados não contam com a proteção do FGC, o que coloca em risco a recuperação integral dos valores estimada em R$ 1,2 bilhão.
Governador é desembargador
O Estado do Rio vive hoje uma situação institucional incomum. Com a renúncia do ex-governador Cláudio Castro, o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, assumiu o governo de forma interina.
O próprio desembargador admitiu publicamente que "um presidente de tribunal não está preparado para ser o governador do Estado". Ainda assim, é sob seu governo que o Estado mantém, nos contracheques dos servidores, descontos em favor de entidade ligada ao Banco Master instituição com operações encerradas pelo BC e alvo de investigações criminais.
Servidores já haviam cobrado publicamente Couto para abrir apuração sobre descontos indevidos e juros abusivos do Credcesta. Um representante do Judiciário no comando do Executivo que tolera repasses a um banco liquidado configura, na avaliação de juristas ouvidos pela reportagem, grave omissão institucional.
Impacto sobre trabalhadores
A crise no Banco Master pode levar à demissão de 1,5 mil trabalhadores, segundo levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) divulgado na segunda-feira (6). O estudo abrange empregados do próprio Master, do Will Bank e do Banco Pleno todas as instituições liquidadas.
A economista Rosângela Vieira, responsável pelo estudo, afirmou que os trabalhadores têm prioridade na ordem de pagamento, mas ressaltou que o caso escancara falhas na regulação do sistema financeiro nacional.
"Existe uma instituição de pagamentos que ajudou no mecanismo de fraude desse banco. As investigações falam sobre isso", disse Vieira, em referência ao uso de fintechs para lavagem de dinheiro.
O Dieese alerta ainda que, se a crise se alastrar para o BRB que adquiriu mais de R$ 12 bilhões em títulos fraudados do Master, quase 4 mil trabalhadores do banco público poderão ser afetados. O BRB é responsável por mais de 60% do financiamento imobiliário do Distrito Federal.
Previdências municipais também na mira
Além do Rio de Janeiro, ao menos 25 previdências municipais aplicaram recursos no Banco Master. A Justiça Federal acolheu pedido do Ministério Público Federal para que o inquérito que apura irregularidades nesses fundos seja encaminhado ao STF, por possível conexão com a investigação do caso Master.
Ao todo, os 19 fundos estaduais e municipais que investiram no banco somam quase R$ 2 bilhões em ativos sem cobertura do FGC, o que pode comprometer a previdência de mais de 630 mil trabalhadores, segundo o Dieese.
Investigações no STF e na PF
O Banco Master é investigado no Supremo Tribunal Federal em inquérito sob relatoria do ministro Dias Toffoli por suspeitas de fraudes financeiras. Após Toffoli deixar a relatoria, o ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a retomar as investigações.
As fraudes podem chegar a R$ 17 bilhões em títulos forjados, conforme a Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF em janeiro deste ano.
O que servidores devem fazer
Especialistas recomendam que servidores ativos e aposentados que ainda têm descontos do Credcesta em seus contracheques adotem as seguintes providências:
Verificar se o desconto está sendo repassado a conta do Banco Master em liquidação
Registrar reclamação formal junto à Secretaria de Administração do Estado e ao setor de RH
Notificar o Banco Central pelo telefone 0800 979 2345 sobre a irregularidade
Procurar o Ministério Público Estadual ou Federal para formalizar denúncia
Matéria atualizada às 10h35 de 7 de abril de 2026.


